
Depois da polêmica que foi o post “Seu bofe é um bofe?” andei pensando nas histórias que li por e-mails, comentários no post e outras de pessoas que me contaram pessoalmente também… o quão normal é viver uma vida dupla.
… mas não deveria ser! Fico pensando no pai de uma amiga minha que depois de completar 30 anos de casado resolveu jogar tudo para o alto e assumir que sempre foi gay. Ele não saiu de casa para morar com um homem, ele saiu de casa em busca da sua liberdade. O relacionamento homossexual ofical veio depois, como uma consequência natural. Eu digo oficial como quem diz às claras, pois acredito que ele teve relações como esta durante seu casamento, mas tudo as escondidas. Pense que foram 30 anos vivendo uma vida dupla! E 30 anos não são 30 dias! Esta vida de fachada deve ser muito torturante não só para quem a vive como também para quem compartilha, mesmo sem saber, de toda a farsa. Imagine como deve ter sido para a esposa dele depois de tantos anos ver seu casamento acabar por que na verdade foi casada com um homem que fatalmente não existe. Foi casada com um personagem.
Mudando o foco agora para outro casal que conheço no qual a trama é ainda mais complexa. Ela se apaixonou por ele e ele por sua vez sempre teve um jeito afeminado. A familia dela dizia, alertava, os mais próximos até tentaram impedir o relacionamento dizendo que ela estava cega. Ele por sua vez sempre foi gay, poderia até não se aceitar, mas sempre foi algo palpável a verdadeira opção sexual dele… menos para ela. Eles se casaram a muitos anos atrás e ele não conseguiu esconder por muito tempo que gostava de homens. Ela, mesmo abalada com a notícia (a verdade é que soube desde o início mas sempre negou) ela lutou pelo seu casamento pois o amava e não queria perdê-lo. Ela estaria disposta a pagar o preço de um casamento por aparências? Sim. Ela se submeteu a cegueira. Fingiu não ver as constantes escapadas do marido e chegou ao ponto de aceitar o amante oficial dele dentro de casa. Ela aceitou que o homem, por quem o marido era apaixonado, morasse com eles durante muitos anos. Mais de 15. Ela estava disposta a pagar este preço para não perdê-lo. Amor demais? Falta de amor por si prórpia? Falta de pespectiva? Medo de ter que assumir que a familia estava certa? Não sei. Os filhos sofreram e ainda sofrerem. Um prefere não ver, finge que nada acontece e acredita que ninguem percebe. O outro se revolta mas o sentimento maior é raiva. Não do pai, mas sim da mãe.

Algumas pessoas encaram esta dupla jornada como um fetiche ou até mesmo uma forma de adrenalina. Mas a grande maioria se veste de um personagem exatamente pra fugir da repressão da família, da decepção que possa vir a causar, de uma falsa liberdade. Então eu lhe pergunto: Até que ponto vale a pena viver uma vida dupla? O sofrimento proveniente do preconceito dos outros e até mesmo do preconceito de si próprio é maior que o sofrimento de anos fingindo ser algo que não é?
Frase do post:
“O passado passou para nós, mas não nós para o passado” (Magnólia)
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